Minas Gerais produz ciência em uma escala que raramente aparece no cotidiano de quem vive no estado.

Ela está nos laboratórios das universidades, nos hospitais universitários, nos centros de pesquisa agropecuária, nas unidades de conservação, nos observatórios, nos institutos tecnológicos e nas empresas que transformam conhecimento acadêmico em produtos e processos.

Está na pesquisa sobre doenças, alimentos, biodiversidade, mineração, energia, agricultura, inteligência artificial, patrimônio, mudanças climáticas e tantas outras áreas.

Mas existe um problema: uma parte considerável dessa ciência permanece restrita aos lugares onde foi produzida.

O pesquisador publica.

O artigo entra em uma base acadêmica.

O resultado é apresentado em um congresso.

O currículo é atualizado.

A universidade divulga uma nota.

E, algumas vezes, a pesquisa termina ali, pelo menos para o público.

Isso é insuficiente.

Não porque todo cidadão precise ler artigos científicos ou compreender metodologias estatísticas complexas.

Mas porque uma sociedade que financia ciência tem o direito de saber que ciência está sendo produzida, por que ela importa, quais problemas pretende resolver e o que já foi descoberto.

A própria FAPEMIG reconhece essa responsabilidade.

A fundação afirma que a produção científica e tecnológica alcança sua plenitude quando acompanhada de ações de difusão destinadas a diferentes públicos — não apenas pesquisadores, mas também gestores, setor industrial, estudantes e sociedade.

O problema é que reconhecer a importância da divulgação científica no discurso é muito mais fácil do que construir uma cultura permanente de comunicação da ciência.

Minas não tem falta de ciência. Tem um problema de visibilidade

É importante começar por uma correção de percepção.

Não faz sentido falar de Minas Gerais como se o estado fosse um território periférico na produção científica brasileira.

A UFMG, por exemplo, informa atualmente possuir 760 grupos de pesquisa cadastrados no CNPq, 7.030 pesquisadores atuando em 2.886 linhas de pesquisa e 710 bolsistas de produtividade do CNPq.

A universidade também registra milhares de produções acadêmicas e uma estrutura que inclui pedidos de patentes, registros de software e contratos de licenciamento.

E ela está longe de ser a única instituição de pesquisa relevante do estado.

Minas possui uma rede formada por universidades federais e estaduais, institutos federais, centros de pesquisa e instituições especializadas que produzem conhecimento em praticamente todas as grandes áreas.

A EPAMIG pesquisa agricultura, pecuária e tecnologias para o setor rural.

A UFV possui tradição internacional em ciências agrárias.

A UFOP desenvolve pesquisas em áreas como mineração, saúde, engenharia, patrimônio e ciências humanas.

A Universidade Federal de Uberlândia atua em diferentes campos científicos e tecnológicos.

A Universidade Federal de Lavras construiu uma trajetória particularmente forte nas ciências agrárias e ambientais.

E essa lista poderia continuar.

O problema não é ausência de produção.

É a distância entre essa produção e a sociedade.

Um artigo científico não é uma matéria jornalística

Aqui está uma distinção que precisa ser levada a sério.

Divulgação científica não significa simplesmente pegar um artigo acadêmico e simplificar suas palavras.

Também não significa transformar qualquer resultado preliminar em uma descoberta extraordinária.

Comunicar ciência exige compreender o que a pesquisa realmente demonstrou, quais são suas limitações, qual é o tamanho da amostra, qual método foi utilizado, se os resultados foram revisados por pares, se existe consenso científico sobre o assunto e o que ainda permanece desconhecido.

É justamente por isso que jornalismo científico de qualidade não pode ser confundido com publicidade institucional.

A universidade tem interesse legítimo em divulgar aquilo que seus pesquisadores fazem.

A agência de fomento tem interesse em mostrar os resultados dos recursos aplicados.

O pesquisador precisa comunicar seu trabalho.

Mas o jornalista não pode simplesmente reproduzir o release.

Precisa fazer perguntas.

O resultado é novo?
O que ele muda?
Qual é a evidência?
Quais são as limitações?
Quem financiou a pesquisa?
Existe conflito de interesses?
Outros pesquisadores concordam?
O resultado foi replicado?
Quando essa descoberta poderá produzir algum efeito concreto?

Sem essas perguntas, a divulgação corre o risco de se transformar em propaganda.

O dinheiro público precisa voltar em forma de conhecimento

Existe uma dimensão ainda mais importante nessa discussão.

Quando uma fundação pública financia uma pesquisa, a relação não termina quando o dinheiro chega ao laboratório.

A sociedade participa do financiamento do sistema científico por meio do orçamento público.

Em Minas Gerais, a FAPEMIG é justamente uma das instituições responsáveis por apoiar pesquisa, tecnologia e inovação no estado.

A fundação mantém linhas específicas para pesquisa e também para divulgação científica.

Isso cria uma responsabilidade que vai além da prestação de contas financeira.

A sociedade precisa conseguir enxergar o que está sendo produzido.

Não significa que cada pesquisa precise gerar uma manchete.

Significa que o sistema científico precisa criar caminhos para que o conhecimento produzido não fique confinado aos especialistas capazes de acessar periódicos acadêmicos, interpretar artigos e acompanhar congressos.

A própria FAPEMIG mantém atualmente dados abertos sobre projetos contratados, incluindo informações como instituição executora, área, título, modalidade e valor contratado.

A base foi disponibilizada para permitir acesso e reutilização desses dados.

É um passo importante.

Mas transparência sobre quanto dinheiro foi investido não é exatamente a mesma coisa que comunicação sobre o que foi descoberto.

São duas coisas diferentes.

O cidadão não precisa virar cientista para entender a ciência

Existe uma falsa oposição entre rigor científico e linguagem acessível.

Como se explicar uma pesquisa para o público significasse necessariamente empobrecê-la.

Não significa.

É perfeitamente possível explicar um estudo complexo sem distorcer seus resultados.

É possível falar sobre genética sem transformar genética em espetáculo.

É possível explicar inteligência artificial sem anunciar que "a tecnologia vai substituir todos os empregos".

É possível falar de mudanças climáticas sem transformar uma projeção em certeza absoluta.

A boa divulgação científica não diminui a complexidade.

Ela cria uma ponte para que mais pessoas possam atravessá-la.

Minas já possui iniciativas que mostram isso.

A UFMG, por exemplo, estabeleceu em 2021 uma política institucional de divulgação científica e criou o Comitê para Discussão e Monitoramento da Política de Divulgação Científica.

A universidade mantém iniciativas como UFMG Talks, UFMG Jovem, #VisualizaUFMG e uma Rede de Divulgação Científica.

A UFOP também mantém uma estrutura de comunicação responsável por divulgar sua produção científica e estabelecer relação com diferentes públicos e veículos de imprensa.

Ou seja: não estamos começando do zero.

A questão é outra.

Essas iniciativas ainda não são suficientes para tornar a ciência mineira parte permanente da conversa pública.

Ciência não deveria aparecer apenas quando ganha prêmio

Há um padrão recorrente na cobertura científica.

O pesquisador ganha um prêmio: notícia.

Uma pesquisa é publicada em uma revista internacional: notícia.

Uma patente é registrada: notícia.

Uma descoberta vira manchete nacional: notícia.

Mas o processo cotidiano da ciência quase desaparece.

E ciência é, principalmente, processo.

É a pesquisa que dá resultado negativo. O experimento que precisa ser repetido. A hipótese que não se confirma. O equipamento que precisa ser calibrado. O estudo que leva anos. A tese que abre uma nova pergunta. A equipe que passa meses coletando dados.

Essa parte menos espetacular é justamente aquela que ajuda o público a compreender como o conhecimento científico é construído.

Se só mostramos a descoberta extraordinária, criamos uma visão distorcida da própria ciência.

Parece que pesquisadores passam o dia encontrando respostas.

Na realidade, grande parte do trabalho científico consiste em formular perguntas melhores.

O jornalismo mineiro também precisa ocupar esse espaço

Não é uma responsabilidade exclusiva das universidades.

Veículos de comunicação também precisam tratar ciência como uma editoria permanente, e não como assunto eventual.

Minas Gerais tem uma vantagem jornalística enorme: o território oferece pautas científicas praticamente inesgotáveis.

Há ciência na mineração e na recuperação de áreas degradadas.

Há ciência na agricultura que enfrenta secas e novas condições climáticas.

Há pesquisa sobre doenças tropicais e saúde pública.

Há estudos sobre biodiversidade no Cerrado, na Mata Atlântica e em outros ecossistemas mineiros.

Há pesquisas sobre água, rios e segurança hídrica.

Há ciência ligada ao patrimônio histórico.

Há pesquisas em inteligência artificial, computação e novos materiais.

Há estudos sobre envelhecimento, educação, desigualdade, urbanização e comportamento.

E há algo especialmente importante: muita dessa ciência trata de problemas que afetam diretamente o cotidiano da população.

A questão é fazer essas conexões.

Não basta informar que determinado laboratório desenvolveu uma nova tecnologia.

É preciso explicar qual problema existe, quem será afetado, quanto custa a solução, em que estágio ela está e o que falta para chegar à sociedade.

Esse é o espaço em que o jornalismo pode fazer diferença.

A divulgação também é uma política científica

Tratar divulgação científica como uma atividade secundária é um erro estratégico.

A própria FAPEMIG possui uma linha específica de apoio à divulgação científica e informa que essas ações têm entre seus objetivos popularizar ciência, tecnologia e inovação e democratizar o acesso ao conhecimento produzido em Minas.

Em 2024, a fundação registrou, por exemplo, uma chamada para organização de eventos técnico-científicos que recebeu 231 propostas e aprovou 118, com investimento de R$ 3,26 milhões.

Em 2026, a FAPEMIG lançou ainda uma chamada específica para fortalecer o papel da EPAMIG na disseminação do conhecimento científico e na difusão de tecnologias agropecuárias produzidas pela instituição.

O objetivo declarado inclui ampliar o acesso às informações sobre a produção científica e tecnológica de Minas.

Isso mostra que a própria política estadual já reconhece o problema.

Agora é preciso dar escala a essa compreensão.

Divulgação científica não deveria aparecer apenas em editais específicos.

Ela deveria estar incorporada ao planejamento de pesquisa, às estratégias das universidades, à formação dos pesquisadores e à relação das instituições científicas com a imprensa.

O pesquisador também precisa aprender a falar com quem está fora da universidade

Existe aqui uma responsabilidade compartilhada.

Não é razoável exigir que todo cientista seja jornalista.

Mas também não podemos continuar formando pesquisadores para publicar exclusivamente para outros pesquisadores.

Um sistema científico maduro precisa preparar seus profissionais para explicar o próprio trabalho a diferentes públicos.

Isso não significa abandonar a linguagem técnica.

Significa saber quando ela é necessária e quando ela funciona como barreira.

Um pesquisador que consegue explicar sua pesquisa para uma criança, para um produtor rural, para um gestor público, para um jornalista e para outro especialista não está simplificando necessariamente sua ciência.

Está demonstrando domínio sobre ela.

E esse domínio é cada vez mais importante.

Porque o vazio de informação não permanece vazio

Quando instituições científicas não explicam o que fazem, alguém ocupa esse espaço.

Pode ser um influenciador.

Pode ser uma empresa interessada em vender um produto.

Pode ser um político.

Pode ser uma página de redes sociais.

Pode ser alguém sem qualquer conhecimento científico.

A internet não deixa um espaço vazio por muito tempo.

A questão é quem terá credibilidade para preenchê-lo.

A divulgação científica consistente não serve apenas para divulgar descobertas.

Ela cria uma infraestrutura social de confiança.

Quando uma epidemia surge, quando uma tecnologia controversa chega ao mercado, quando uma nova política ambiental é discutida ou quando uma informação falsa sobre saúde viraliza, sociedades com maior cultura científica têm mais instrumentos para avaliar afirmações.

Por isso, investir em divulgação científica é também investir em democracia.

Minas precisa contar a própria ciência

Existe ainda uma questão de identidade.

Minas Gerais costuma ser lembrada nacionalmente por sua história, sua gastronomia, sua música, suas montanhas e sua mineração.

Tudo isso faz parte do estado.

Mas Minas contemporânea também é laboratório.

É universidade.

É tecnologia.

É pesquisa agropecuária.

É biotecnologia.

É engenharia.

É saúde.

É inovação.

É inteligência artificial.

É conservação ambiental.

É conhecimento produzido por milhares de pesquisadores que raramente aparecem na imagem que o Brasil faz do estado.

Contar essa história é também atualizar a própria ideia de Minas Gerais.

Um estado que deseja participar da economia do conhecimento não pode esconder sua produção científica atrás dos muros das universidades.

E um portal jornalístico mineiro não deveria esperar que a ciência produzida aqui se torne manchete nacional para começar a prestar atenção.

Precisamos olhar antes.

Precisamos perguntar antes.

Precisamos explicar antes.

Precisamos acompanhar a pesquisa enquanto ela acontece — inclusive quando ela falha, muda de direção ou ainda não possui uma resposta definitiva.

A ciência precisa sair do laboratório sem perder o rigor

Esse deveria ser o objetivo.

Não transformar toda pesquisa em notícia.

Não transformar todo pesquisador em celebridade.

Não transformar cada resultado preliminar em revolução.

E muito menos transformar divulgação científica em propaganda institucional.

O objetivo é mais simples e, ao mesmo tempo, mais ambicioso: fazer com que o conhecimento produzido em Minas Gerais possa ser compreendido, questionado e utilizado pela sociedade que ajuda a sustentá-lo.

A ciência mineira já existe.

Tem pesquisadores.

Tem laboratórios.

Tem universidades.

Tem financiamento.

Tem resultados.

Tem problemas importantes para investigar.

Tem gente qualificada para explicar tudo isso.

O que ainda falta é transformar essa produção em uma presença permanente no espaço público.

Porque uma pesquisa que permanece restrita a uma publicação acadêmica pode ser cientificamente valiosa.

Mas uma sociedade que não consegue saber o que seus pesquisadores estão descobrindo perde uma parte importante do retorno desse investimento.

Minas não precisa apenas produzir ciência. Precisa contar a ciência que produz.

E contar bem.

Com rigor suficiente para não enganar.

Com clareza suficiente para ser compreendida.

E com jornalismo suficiente para fazer a pergunta que talvez seja a mais importante de todas:

o que o conhecimento produzido em Minas está mudando na vida dos mineiros?