OURO PRETO (MG) — Há cidades que preservam edifícios. Há cidades que preservam paisagens. Ouro Preto preserva também uma quantidade extraordinária de documentos capazes de reconstruir, em diferentes escalas, a história de Minas Gerais.
A memória que sobrevive na antiga Vila Rica não está reunida em um único arquivo nem cabe em uma única instituição.
Ela está espalhada entre museus, arquivos públicos, coleções particulares incorporadas ao patrimônio documental, fundos administrativos, documentos fazendários, inventários, testamentos, registros judiciais, partituras, fotografias, plantas arquitetônicas e processos de tombamento.
Essa característica é fundamental para entender a dimensão histórica de Ouro Preto.
A cidade não guarda apenas objetos que ilustram o passado.
Guarda documentos produzidos pelo próprio funcionamento da sociedade colonial e imperial.

São registros que permitem investigar como o ouro era administrado, como impostos eram cobrados, como terras eram distribuídas, como pessoas eram julgadas, como famílias acumulavam patrimônio, como a escravidão estava incorporada à economia e à vida cotidiana e como a cultura religiosa e musical se desenvolveu nas Minas.
O resultado é uma espécie de arquivo fragmentado de uma sociedade inteira.
Mas essa história também revela uma contradição: parte importante da documentação produzida em Ouro Preto não permaneceu em Ouro Preto.
Alguns conjuntos foram transferidos para outras instituições, principalmente depois da mudança da capital para Belo Horizonte, em 1897.
Outros foram incorporados a arquivos nacionais ou bibliotecas.
A preservação da memória de Vila Rica, portanto, também é a história de documentos que sobreviveram, foram deslocados, reorganizados e, em alguns casos, digitalizados para que possam novamente ser pesquisados como conjuntos relacionados.
É essa trajetória que transforma Ouro Preto em algo maior do que uma cidade colonial preservada.
Antes dos museus, havia a burocracia
Uma das melhores maneiras de compreender a sociedade de Vila Rica está em documentos que, à primeira vista, parecem pouco atraentes.
Folhas de pagamento, recibos, cartas, requerimentos, ordens régias, contratos, registros de impostos, contas de receita e despesa e documentos administrativos podem parecer burocracia morta.
Para um historiador, porém, eles são registros de uma sociedade em funcionamento.
A Coleção Casa dos Contos, sob guarda do Arquivo Público Mineiro, reúne documentação dos séculos XVIII e XIX relacionada à administração fazendária.
O conjunto inclui registros do quinto do ouro, capitação de escravos, dízimos, direitos de entrada e passagem, contratos, salários, contas, correspondências e documentos relacionados à administração da capitania.
O catálogo atual do Arquivo Público Mineiro descreve a coleção com 55,53 metros lineares; o inventário histórico registra datas-limite de 1700 a 1853 e centenas de volumes e caixas.
O detalhe mais revelador talvez esteja na diversidade geográfica dos documentos.
O catálogo digital da Casa dos Contos apresenta registros relacionados não apenas a Ouro Preto, mas também a localidades como Sabará, Serro, Mariana, São João del-Rei, Paracatu, Minas Novas e outras regiões.
Há, por exemplo, listas de soldos de soldados de diferentes partes da capitania, registros de tributos e documentos referentes a circulação de mercadorias e atividades administrativas.
Isso significa que pesquisar a história de Ouro Preto pode levar muito além das ruas da cidade.
Os documentos produzidos pela administração de Vila Rica ajudam a compreender a própria formação territorial e econômica de Minas.
A Casa dos Contos também revela uma das dificuldades enfrentadas por quem tenta reconstruir o passado: o acervo não está inteiro em um único lugar.
Segundo o inventário do Arquivo Público Mineiro, a documentação da Casa dos Contos foi recolhida por três instituições — o próprio APM, o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional.
O conjunto sob guarda do APM corresponde a aproximadamente 20% do total identificado no inventário.
O próprio instrumento de pesquisa registra ainda que microfilmes e inventários relacionados ao acervo podem ser encontrados em diferentes instituições.
A memória de Ouro Preto, portanto, é também uma memória dispersa.
A mudança da capital mudou o destino dos documentos
Essa dispersão não aconteceu por acaso.
Em 1897, Belo Horizonte substituiu Ouro Preto como capital de Minas Gerais.
Com a transferência dos órgãos estaduais, parte dos arquivos administrativos também deixou a antiga capital.
O próprio município registra que o Arquivo Público Mineiro havia sido criado em Ouro Preto em 1895 e que, depois da mudança da capital, houve transferência gradual dos órgãos estaduais e do arquivo para Belo Horizonte.
Nem toda a documentação, entretanto, foi recolhida. Parte dos documentos administrativos e camarários dos séculos XVIII e XIX permaneceu sob guarda da Câmara Municipal de Ouro Preto.
Décadas depois, essa situação ajudaria a explicar a criação do Arquivo Público Municipal de Ouro Preto, em 1990.
A instituição nasceu justamente com a finalidade de reunir, preservar e disponibilizar documentos e outros materiais relacionados à memória do município.
É um detalhe importante porque mostra que preservação não é um processo encerrado no passado.
Ela precisa ser continuamente refeita.
Um documento pode sobreviver por séculos e, ainda assim, ficar vulnerável se não houver instituição responsável por sua guarda, catalogação, conservação, acesso e reprodução.
O Museu da Inconfidência guarda muito mais do que a Inconfidência
O nome do Museu da Inconfidência poderia sugerir um acervo concentrado exclusivamente no movimento de 1789.
Não é o que existe ali.
Instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Ouro Preto, o museu foi inaugurado em 1944 com a missão de preservar e divulgar objetos e documentos relacionados à Inconfidência Mineira.
Hoje, entretanto, seu patrimônio documental ultrapassa largamente esse episódio.
O Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência, criado em 1949, guarda mais de 40 mil documentos.
Entre eles estão inventários, testamentos, registros cartorários e documentos jurídicos civis e criminais que ajudam a revelar aspectos sociais e políticos da vida em Vila Rica nos séculos XVIII e XIX.
O acervo inclui ainda documentação relacionada à Inconfidência, documentos associados a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e conjuntos de documentação musicológica.
Essa variedade muda a maneira de olhar para o museu.
O arquivo permite sair da narrativa tradicional centrada em grandes personagens e entrar na vida concreta da sociedade.
Um inventário pode revelar patrimônio, relações familiares e condições econômicas.
Um testamento pode indicar vínculos, devoções, obrigações e relações sociais.
Um documento judicial pode revelar conflitos que jamais apareceriam em uma narrativa histórica baseada apenas em acontecimentos políticos.
O arquivo, nesse sentido, não preserva apenas a memória dos vencedores ou dos personagens consagrados.
Ele conserva vestígios da sociedade que produziu aqueles personagens.
A música colonial que precisou ser redescoberta
Talvez nenhum outro conjunto de Ouro Preto demonstre tão claramente como a preservação documental pode mudar aquilo que se sabe sobre a história.
A Coleção Francisco Curt Lange reúne documentos musicais produzidos entre 1750 e 1930 e atualmente sob custódia do Museu da Inconfidência.

A coleção foi reconhecida pela UNESCO no programa Memória do Mundo e está registrada no programa regional da organização desde 2017.
O caso é especialmente significativo.
O musicólogo alemão Francisco Curt Lange chegou ao Brasil interessado na produção musical mineira dos séculos XVIII e XIX.
Sua pesquisa contrariava uma visão segundo a qual não haveria produção musical relevante naquele período e lugar.
A partir da pesquisa em arquivos e da coleta de partituras, Lange ajudou a demonstrar a dimensão dessa produção.
A coleção hoje reúne documentos provenientes de diferentes lugares e permite estudar desde repertórios religiosos até música para bandas, orquestras, piano, canções e óperas.
O acervo não serve apenas para conhecer quais músicas eram executadas.
A análise dos documentos permite investigar circulação de manuscritos, cópias de partituras, mudanças de gosto, instrumentos utilizados e transformações da linguagem musical.
A própria UNESCO considera o conjunto fundamental para a história da música nas Américas.
No Brasil, a Coleção Curt Lange foi reconhecida no Registro Nacional do Programa Memória do Mundo da UNESCO em 2014.
Mais tarde, apareceu no registro regional latino-americano e caribenho.
A dimensão do acervo também pode ser percebida no catálogo digital do museu, que informa cerca de 5 mil partituras de música colonial mineira, incluindo a Coleção Curt Lange, além de uma biblioteca mineiriana com quase 20 mil volumes.
O episódio mostra que preservar não significa simplesmente impedir que um papel desapareça.
É necessário identificar, organizar, catalogar, contextualizar e tornar pesquisável aquilo que sobreviveu.
Foi justamente esse trabalho que permitiu transformar partituras antigas em novas possibilidades de pesquisa histórica.
O que a documentação revela sobre uma sociedade desigual
Há outra dimensão que merece atenção.
A documentação preservada em Ouro Preto não conta uma história exclusivamente gloriosa.
Ela registra uma sociedade marcada pela exploração do ouro, pela escravidão, pela desigualdade social, pela concentração de riqueza e pelo controle administrativo exercido pela Coroa portuguesa.
A própria documentação da Casa dos Contos inclui registros relacionados à capitação de escravos e a outros mecanismos fiscais da economia colonial.
Essa característica é fundamental para uma leitura contemporânea do patrimônio.
Preservar documentos do período colonial não significa preservar uma imagem idealizada do período colonial.
Ao contrário: quanto mais amplo é o acervo, maior é a possibilidade de confrontar versões romantizadas da história.
Os documentos fiscais mostram a máquina de arrecadação. Os inventários mostram patrimônio e relações familiares.
Os processos judiciais registram conflitos. Os documentos administrativos revelam a estrutura do poder. Os registros religiosos ajudam a compreender práticas de fé. As partituras revelam a circulação cultural.
Juntos, esses fragmentos permitem enxergar uma sociedade muito mais complexa do que aquela representada apenas pelas igrejas, casarões e nomes famosos.
Preservar Ouro Preto foi uma decisão política
A sobrevivência desse patrimônio também não foi inevitável.
No século XX, Ouro Preto passou a ocupar um lugar central na construção da política brasileira de preservação.
A cidade foi elevada à condição de monumento nacional em 1933 e teve seu conjunto arquitetônico e urbanístico tombado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1938.
Estudos sobre a trajetória do tombamento registram que Ouro Preto integrou o primeiro grupo de cidades mineiras protegidas pelo órgão naquele ano.
A decisão ocorreu em um período em que o Brasil começava a institucionalizar uma política nacional de patrimônio.
Não era apenas uma escolha estética.
Preservar Ouro Preto significava atribuir valor histórico a uma cidade que havia perdido a condição de capital e que carregava marcas de transformações econômicas e sociais profundas.
Décadas depois, a dimensão internacional desse reconhecimento chegaria com a UNESCO: Ouro Preto foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial em 1980.
Mas há uma distinção importante.
O reconhecimento internacional não encerrou a história da preservação.
Ele aumentou a responsabilidade.
A cidade preservada também mudou
Existe uma tendência de imaginar Ouro Preto como se tivesse simplesmente atravessado três séculos intacta.
Não atravessou.
A cidade mudou de função, população, economia e significado.
Um estudo publicado pelo próprio IPHAN sobre a trajetória da preservação de Ouro Preto aponta que a decadência da mineração e, posteriormente, a mudança da capital para Belo Horizonte provocaram transformações profundas na estrutura urbana e social da cidade.
Isso ajuda a explicar um paradoxo.
Ouro Preto é internacionalmente reconhecida como patrimônio, mas patrimônio não é sinônimo de cidade congelada no tempo.
As pessoas continuam morando ali. Casas precisam de manutenção. Edificações precisam de novos usos. Ruas precisam atender à vida contemporânea.
Comércio, universidade, turismo e atividades culturais ocupam o mesmo espaço urbano.
Preservar, portanto, é negociar continuamente entre permanência e transformação.
E o turismo?
Essa é uma das questões mais difíceis.
O patrimônio precisa ser acessível. Um centro histórico sem pessoas, pesquisa, educação e uso social corre o risco de transformar-se em cenário.
Ao mesmo tempo, a circulação de visitantes aumenta a responsabilidade sobre edifícios, coleções e espaços históricos.
O Museu da Inconfidência, por exemplo, recebeu mais de 296 mil visitantes em 2023, segundo dados institucionais apresentados pelo Ibram. Até junho de 2024, já havia recebido mais de 170 mil visitantes.
Esses números ajudam a dimensionar o alcance público da instituição.
Mas existe uma diferença entre visitar o patrimônio e compreender o patrimônio.
Uma pessoa pode atravessar a Praça Tiradentes, fotografar uma igreja e sair de Ouro Preto sem jamais saber que, em arquivos da mesma cidade, existem documentos capazes de reconstruir relações econômicas, familiares, jurídicas e culturais de pessoas que viveram ali há séculos.
É nesse ponto que a preservação documental ganha uma função que vai além da conservação física.
Ela transforma turismo em possibilidade de conhecimento.
O problema é que preservar papel não é simplesmente guardá-lo
A memória documental também enfrenta problemas muito menos visíveis para quem visita a cidade.
Documentos antigos precisam de condições adequadas de conservação, tratamento técnico, catalogação e controle de acesso.
O próprio Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência informa que determinados documentos podem ter acesso restrito em razão de seu estado de conservação.
A instituição oferece, além da consulta, serviços de reprodução micrográfica e digital, transcrição e fac-símile. Também mantém banco de dados para pesquisa.
O Plano Museológico 2025–2029 do Museu da Inconfidência expõe parte dos desafios atuais.
O documento identifica, entre outros pontos, necessidade de manutenção técnica, contratação de serviços contínuos de manutenção predial e problemas relacionados às condições de funcionamento dos laboratórios de conservação.
Ao mesmo tempo, estabelece como objetivos ações de preservação, pesquisa, comunicação, sustentabilidade e reestruturação do patrimônio que está em museus.
Isso revela uma verdade que raramente aparece nos cartões-postais:
preservar é um trabalho permanente.
O patrimônio não está salvo simplesmente porque recebeu um tombamento.
A digitalização mudou o alcance da memória
A tecnologia abriu uma nova frente.
Nos últimos anos, instituições de Ouro Preto passaram a disponibilizar catálogos e partes de seus acervos na internet.
O Museu da Inconfidência, por exemplo, mantém acervo digital e oferece acesso a informações sobre coleções documentais e museológicas.
A digitalização não substitui o documento original.
Uma fotografia digital não reproduz completamente um manuscrito: não carrega necessariamente sua textura, seu suporte, marcas físicas, intervenções posteriores ou todas as informações materiais que um pesquisador pode encontrar no original.
Mas a cópia digital pode cumprir outra função decisiva.
Ela reduz a necessidade de manuseio do original, amplia o acesso, permite pesquisas preliminares a distância e facilita a circulação do conhecimento.
No caso das coleções musicais do Museu da Inconfidência, por exemplo, o processo de disponibilização online começou a tornar pesquisáveis dados de importantes conjuntos documentais, entre eles a Coleção Curt Lange.
A preservação do futuro, portanto, terá duas dimensões inseparáveis: conservar o objeto físico e garantir que sua informação continue acessível em ambientes digitais.
Mas digitalizar também não resolve tudo
Existe outro risco na ideia de que a tecnologia poderá simplesmente “salvar” a memória.
Digitalização exige seleção, organização, metadados, infraestrutura, armazenamento, migração tecnológica e manutenção.
Um documento pode estar digitalizado e continuar praticamente invisível se ninguém souber que ele existe ou se seu catálogo não permitir localizá-lo.
Por isso, a organização arquivística é tão importante quanto o scanner.
O catálogo da Casa dos Contos demonstra essa dimensão. São milhares de descrições de documentos, organizadas por datas, assuntos, localidades e tipos documentais.
Entre elas aparecem requerimentos, pagamentos, listas, recibos, cargos, ofícios e registros tributários.
A memória só se torna verdadeiramente pesquisável quando existe uma ponte entre o documento e quem procura por ele.
O que foi perdido?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil.
É relativamente fácil falar sobre os 40 mil documentos do Museu da Inconfidência, sobre a Casa dos Contos ou sobre as milhares de partituras.
Mais difícil é contabilizar aquilo que não chegou até nós.
Arquivos não são fotografias completas do passado.
Eles são sobrevivências.
O fato de uma documentação ter sido dispersa entre instituições já demonstra que a trajetória dos documentos foi marcada por transferências, reorganizações e mudanças de custódia.
No caso da Casa dos Contos, o próprio Arquivo Público Mineiro registra que documentos foram recolhidos por diferentes instituições e que seu acervo representa apenas uma parte do conjunto identificado.
Isso significa que qualquer narrativa histórica baseada nos arquivos precisa considerar também seus silêncios.
Aquilo que não foi preservado pode ter desaparecido por deterioração, descarte, incêndio, transferência, falta de catalogação ou simplesmente porque nunca chegou a ser registrado.
E mesmo aquilo que sobreviveu pode permanecer inacessível durante décadas.
A ausência de um documento não prova que determinado acontecimento não ocorreu.
Às vezes, significa apenas que o documento não sobreviveu.
Essa distinção é essencial para qualquer jornalismo histórico responsável.
A memória não pertence apenas aos grandes personagens
Outro efeito produzido pela amplitude desses arquivos é a possibilidade de mudar o foco da narrativa.
Ouro Preto não pode ser reduzida a Tiradentes, Aleijadinho, ouro e igrejas barrocas.
Esses personagens e símbolos fazem parte da história, mas os arquivos mostram uma cidade formada também por trabalhadores, escravizados, comerciantes, militares, funcionários, religiosos, mulheres, famílias, artesãos, contratadores, autoridades e pessoas comuns que aparecem nos documentos apenas porque participaram de algum processo administrativo, econômico ou judicial.
Os registros de inventários e testamentos do Museu da Inconfidência, por exemplo, constituem uma fonte para compreender aspectos sociais e políticos da Vila Rica dos séculos XVIII e XIX.
Essa documentação permite uma mudança de perspectiva.
A história deixa de ser apenas a história de quem teve seu nome gravado em monumentos.
Passa a ser também a história daqueles que aparecem em uma linha de um documento.
Quem preserva essa memória?
Não existe um único responsável.
A preservação de Ouro Preto depende de uma estrutura institucional formada por diferentes atores.
O Museu da Inconfidência preserva documentos, objetos, obras de arte e uma biblioteca especializada.
O Arquivo Público Mineiro mantém uma parte importante da documentação da Casa dos Contos.
O Arquivo Público Municipal atua sobre a memória documental do município. O IPHAN responde por instrumentos de proteção patrimonial em âmbito federal.
Universidades e pesquisadores transformam os acervos em conhecimento.
Instituições como a UNESCO reconhecem determinados conjuntos pela relevância documental internacional.
E existe ainda uma camada menos visível: profissionais responsáveis pela conservação, catalogação, descrição, digitalização, pesquisa e atendimento.
Sem esse trabalho cotidiano, um documento antigo pode continuar fisicamente existente e, ao mesmo tempo, desaparecer da história.
Porque existir não é o mesmo que estar preservado.
E estar preservado não é o mesmo que estar acessível.
O patrimônio continua sendo construído
Um exemplo recente demonstra que a preservação de Ouro Preto ainda está em movimento.
Em junho de 2026, o Conselho Consultivo do IPHAN aprovou o tombamento federal individual da antiga Casa da Ópera de Vila Rica, atual Teatro Municipal de Ouro Preto.
O edifício, inaugurado em 1770, já fazia parte do conjunto urbano tombado desde 1938, mas passou a contar também com proteção individual em âmbito federal.
O processo havia começado em 1963 e permaneceu durante décadas sem decisão definitiva.
O caso é emblemático porque mostra que patrimônio não é uma lista encerrada.
Novas pesquisas podem modificar a compreensão de um bem. Processos antigos podem ser retomados.
Novos instrumentos de proteção podem ser criados. Edificações antes vistas apenas como parte de um conjunto podem adquirir reconhecimento individual.
A própria história da preservação passa a fazer parte da história preservada.
A grande pergunta não é apenas o que Ouro Preto conservou
Ouro Preto possui uma das mais importantes concentrações documentais relacionadas à formação histórica de Minas, mas sua importância não está simplesmente na quantidade de documentos.
Está na capacidade desses documentos de dialogarem entre si.
Um registro fiscal pode conversar com um inventário. Um processo judicial pode complementar um documento administrativo.
Uma partitura pode revelar uma circulação cultural que não aparece nos relatos políticos.
Uma planta arquitetônica pode esclarecer uma transformação urbana.
Um processo de tombamento pode mostrar como gerações posteriores decidiram o que merecia ser preservado.
É essa combinação que transforma a cidade em um laboratório histórico.
E também é por isso que a ideia de “um dos acervos mais completos sobre o período colonial mineiro” precisa ser compreendida com cuidado.
Não se trata de um único acervo completo, fechado e capaz de representar sozinho toda a história colonial.
O que Ouro Preto possui é algo mais complexo: uma extraordinária concentração de acervos diferentes, produzidos por instituições e pessoas diferentes, que juntos permitem reconstruir múltiplas dimensões da história de Minas.
Essa diferença parece pequena.
Não é.
Ela separa uma cidade que simplesmente conserva objetos antigos de uma cidade que conserva possibilidades de pesquisa.
Quem guardará essa memória daqui a cem anos?
Essa é a pergunta que fica quando a reportagem deixa de olhar apenas para o passado.
Ouro Preto conseguiu conservar documentos por mais de dois séculos porque diferentes gerações decidiram, em momentos distintos, que aqueles registros tinham valor.
Primeiro, porque eram necessários ao funcionamento administrativo. Depois, porque passaram a ser reconhecidos como documentos históricos.
Mais tarde, porque instituições criaram políticas específicas de preservação.
Em seguida, porque pesquisadores descobriram novas perguntas dentro daqueles papéis.
E, finalmente, porque a sociedade passou a reconhecer que memória também é patrimônio.
Nada garante, porém, que esse processo continue automaticamente.
O desafio agora é preservar o original, ampliar a digitalização, melhorar os instrumentos de pesquisa, formar profissionais, garantir recursos, manter edifícios e equipamentos, controlar riscos, ampliar o acesso público e evitar que a memória seja transformada apenas em cenário turístico.
O patrimônio de Ouro Preto não está seguro porque sobreviveu até aqui.
Ele está vivo porque continua sendo cuidado.
E talvez essa seja a maior lição deixada pela cidade.
A memória de Minas não está apenas nas igrejas, nas pontes, nos casarões ou nas ruas de pedra.
Ela está também em folhas manuscritas, livros de contas, inventários, processos, cartas, partituras e registros administrativos que sobreviveram a mudanças políticas, econômicas e urbanas.
Alguns permaneceram em Ouro Preto.
Outros foram embora e hoje precisam ser reencontrados em arquivos de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outras instituições.
Alguns estão digitalizados.
Outros ainda dependem do trabalho de pesquisadores para serem identificados e interpretados.
Alguns documentos contam histórias conhecidas.
Outros podem alterar aquilo que pensamos conhecer.
É por isso que preservar Ouro Preto não significa apenas manter de pé uma cidade do século XVIII.
Significa manter abertas as possibilidades de descobrir, no futuro, novas histórias sobre o passado.
A pergunta, portanto, não é somente quem guardou a memória de Minas.
É também quem continuará guardando aquilo que ainda não conseguimos compreender completamente.
O que esta reportagem revela
A preservação de Ouro Preto não é resultado de uma única iniciativa nem pode ser atribuída exclusivamente ao poder público municipal.
Ela é resultado de uma trajetória institucional iniciada ainda na primeira metade do século XX e sustentada por arquivos, museus, órgãos de patrimônio, pesquisadores e outras instituições.
O que torna Ouro Preto excepcional é a combinação entre patrimônio arquitetônico, documentação administrativa, arquivos judiciais e cartoriais, coleções musicais, bibliotecas, documentos relacionados à Inconfidência e outros conjuntos que permitem investigar diferentes dimensões da sociedade mineira.
A cidade preserva, portanto, não apenas a aparência do passado, mas parte significativa dos rastros documentais que permitem questioná-lo.
Serviço — onde a memória está guardada
Museu da Inconfidência / Arquivo Histórico
Guarda mais de 40 mil documentos, incluindo inventários, testamentos, documentos jurídicos, registros cartorários, documentos relacionados à Inconfidência e coleções musicológicas.
O acesso ao arquivo é realizado mediante agendamento e há banco de dados para pesquisa.
Arquivo Público Municipal de Ouro Preto
Criado em 1990 para reunir, preservar e disponibilizar documentos e outros materiais relacionados à memória do município.
Casa dos Contos / Coleção Casa dos Contos
Reúne documentação fazendária dos séculos XVIII e XIX, incluindo registros de impostos, contratos, pagamentos, correspondência administrativa e documentação relacionada à economia da mineração.
Parte do conjunto encontra-se sob guarda do Arquivo Público Mineiro.
Acervo digital do Museu da Inconfidência
Permite pesquisar parte das coleções e oferece acesso a informações sobre milhares de itens, incluindo partituras e a Coleção Francisco Curt Lange.
Ouro Preto não recebeu simplesmente um passado pronto
Está na constatação de que a memória histórica é uma construção contínua.
Gerações diferentes decidiram, em momentos diferentes, o que preservar, onde guardar, como catalogar, como pesquisar e como transmitir.
O próximo capítulo dessa história ainda está sendo escrito.




