Durante décadas, a mineração de ferro redesenhou a paisagem do centro de Minas Gerais. Cavas avançaram sobre montanhas, estradas foram abertas, pilhas de estéril cresceram e estruturas industriais passaram a fazer parte do horizonte de municípios como Itabira, Mariana, Ouro Preto, Congonhas, Itabirito, Nova Lima e Brumadinho.

Agora, outra transformação acontece no mesmo território, mas em ritmo diferente: a tentativa de devolver função ambiental a áreas que deixaram de ser mineradas.

O processo envolve revegetação, estabilização de terrenos, controle de erosão, recuperação de cursos d'água, remoção ou desmobilização de estruturas e, em alguns casos, definição de um novo uso para a área. Não se trata apenas de plantar árvores depois que uma mina deixa de operar.

O desafio é maior porque o Quadrilátero Ferrífero reúne ecossistemas que podem levar períodos muito longos para se recompor — e alguns deles não retornam simplesmente porque uma área foi coberta novamente por vegetação.

Um estudo divulgado pela Universidade Federal de Minas Gerais em julho de 2026 encontrou justamente esse problema em áreas de canga, o campo rupestre ferruginoso característico das montanhas da região. Pesquisadores compararam áreas preservadas com duas antigas áreas mineradas em Mariana: uma abandonada havia cerca de 50 anos e outra há mais de três séculos. Mesmo depois desse tempo, nenhuma havia recuperado a biodiversidade e o funcionamento ecológico encontrados nas áreas de referência.

A conclusão acrescenta uma dimensão importante ao debate: em determinadas paisagens do Quadrilátero, o tempo, sozinho, não é suficiente para reparar a alteração provocada pela mineração.

Uma região onde minério e biodiversidade ocupam o mesmo território

O Quadrilátero Ferrífero não é apenas uma das principais regiões produtoras de minério de ferro do país. É também uma área de elevada importância ambiental.

A região funciona como uma área de transição entre Cerrado e Mata Atlântica e abriga formações de campos rupestres ferruginosos, florestas e áreas de vegetação savânica. Documento técnico da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) destaca a singularidade da flora regional e registra que cerca de 30% das espécies vegetais do Quadrilátero Ferrífero são endêmicas.

A canga é particularmente sensível.

O solo desses ambientes é raso, pobre em nutrientes e rico em metais. As plantas que vivem ali estão adaptadas a essas condições específicas. Quando a mineração remove a camada superficial do terreno, não desaparece apenas a vegetação que pode ser observada a olho nu.

Também são removidas sementes, microrganismos e estruturas subterrâneas importantes para a regeneração.

Foi essa diferença que apareceu no estudo da UFMG.

Na área minerada há mais de 300 anos, o solo havia recuperado parte de suas características químicas originais. A vegetação, porém, não havia retornado à condição encontrada na área preservada. O local mais antigo apresentou apenas 20 espécies registradas, enquanto a área minerada havia cerca de 50 anos registrou 29.

A pesquisa mostra por que uma paisagem que voltou a ficar verde não necessariamente voltou a ser ecologicamente equivalente àquela que existia antes da mineração.

Recuperar não significa simplesmente revegetar

Durante muito tempo, a recuperação de áreas mineradas foi associada principalmente à recomposição da cobertura vegetal.

Hoje, o processo envolve uma série de etapas.

O objetivo é estabilizar o terreno, reduzir processos erosivos, recompor condições físicas do solo, controlar impactos sobre a água e estabelecer vegetação compatível com o ambiente original ou com o uso futuro definido para aquela área.

A legislação e os órgãos ambientais também passaram a tratar o fechamento da mina como parte do próprio ciclo do empreendimento.

Em Minas Gerais, a Feam define o fechamento de mina como um processo que começa ainda durante os estudos de viabilidade e se estende até o encerramento da atividade. Ele inclui descomissionamento de estruturas, recuperação ambiental, medidas de segurança e definição de possíveis usos futuros.

Essa mudança é importante porque reduz a distância entre duas etapas que durante muito tempo foram tratadas como momentos separados: extrair o minério e, depois, recuperar a área.

A proposta atual é planejar o fechamento enquanto a mina ainda está em funcionamento.

Minas tem 130 áreas em processo de fechamento e recuperação

Os números estaduais ajudam a dimensionar o tamanho da tarefa.

Em 2025, a Feam informou ter acompanhado 130 áreas em processo de fechamento e recuperação ambiental em Minas Gerais. Mais de 20 delas já haviam recebido a Declaração de Recuperação Ambiental emitida pela fundação.

Um levantamento publicado pela Feam em dezembro de 2024 havia reunido informações técnicas de 79 áreas mineradas: 72 estavam em processo de recuperação ou fechamento ambiental e sete tinham concluído o processo de fechamento de mina e recebido a declaração de área recuperada.

Os dois levantamentos não devem ser somados, porque representam momentos e universos diferentes de acompanhamento.

Eles mostram, entretanto, que a recuperação de áreas mineradas já constitui uma frente permanente de atuação ambiental do Estado.

Em dezembro de 2025, a Feam lançou o Programa de Reconversão Ambiental: Recuperação e Fechamento de Mina, com a proposta de organizar a política estadual para o pós-mineração.

O programa prevê recuperação progressiva, planejamento antecipado, acompanhamento de minas paralisadas, fechamento definitivo e enfrentamento de passivos ambientais.

O problema é que uma mina pode estar sendo recuperada enquanto outra área começa a ser explorada

É aqui que surge uma das principais dificuldades para medir o resultado ambiental da mineração.

A recuperação não acontece necessariamente depois que toda a atividade mineral termina em uma região.

Grandes empreendimentos podem encerrar uma frente de lavra e, simultaneamente, avançar para outra parte da jazida. Enquanto uma área começa a receber ações de recuperação, outra pode estar sendo preparada para continuar produzindo.

Isso torna inadequada uma comparação simples entre “área recuperada” e “área minerada” sem considerar o ciclo de cada empreendimento.

Há, porém, um fato que ajuda a compreender a pressão existente sobre o território: a atividade mineral continua recebendo projetos de expansão e abertura de novas áreas.

Em julho de 2025, por exemplo, a Samarco comunicou a aprovação de uma licença ambiental para seu Projeto de Longo Prazo. A autorização permite a abertura de novas áreas de lavra e estruturas de disposição de estéril e rejeitos, com o objetivo de elevar gradualmente a produção da empresa até 2028.

O exemplo não representa sozinho todo o Quadrilátero Ferrífero, mas demonstra como expansão produtiva e recuperação ambiental podem ocorrer simultaneamente dentro de uma mesma região mineradora.

Por isso, o desafio ambiental não é apenas recuperar o que já foi degradado.

É impedir que a recuperação se transforme em uma corrida permanente atrás de novas áreas impactadas.

A canga não espera o cronograma da mineração

O estudo da UFMG acrescenta um problema de escala temporal.

A atividade econômica trabalha com anos e décadas. A recuperação de determinados ecossistemas pode exigir períodos muito maiores.

Nas duas áreas analisadas em Mariana, a regeneração natural não foi suficiente mesmo depois de 50 e mais de 300 anos. Os pesquisadores concluíram que a restauração da canga precisa envolver intervenções ativas, utilizando conhecimento científico e referências de ecossistemas preservados.

Uma das dificuldades está justamente no solo.

Em áreas convencionais de recuperação, pode parecer lógico adicionar nutrientes para acelerar o crescimento da vegetação. Na canga, essa estratégia pode produzir o efeito contrário.

As plantas nativas são adaptadas a solos pobres. O enriquecimento artificial pode favorecer espécies invasoras e plantas que não pertencem àquele ambiente.

Os pesquisadores recomendam, portanto, que a restauração preserve características naturais do solo e utilize sementes e mudas de espécies próprias da região.

A recuperação passa, nesse caso, a depender de um conhecimento muito específico sobre cada ambiente.

O que fazer com uma mina depois que o minério acaba?

Outra questão começa a ganhar importância: o que acontece com o território depois da mineração?

Uma área recuperada não precisa necessariamente voltar exatamente ao estado anterior à mineração. Dependendo das características do local, podem ser considerados outros usos, desde que sejam tecnicamente seguros e ambientalmente adequados.

A política estadual de reconversão ambiental prevê justamente essa discussão sobre novos usos para territórios minerados.

Uma pesquisa desenvolvida na UFMG estudou, por exemplo, a possibilidade de transformar cavas desativadas do Quadrilátero Ferrífero em reservatórios para sistemas de armazenamento de energia por usinas hidrelétricas reversíveis. O trabalho analisou a utilização de áreas degradadas pela mineração para uma finalidade energética posterior.

A proposta não significa que todas as cavas possam ou devam receber esse tipo de empreendimento. O estudo é um caso de pesquisa sobre uma possibilidade de reutilização.

A discussão, entretanto, mostra uma mudança na forma de pensar o fechamento de mina: a pergunta deixa de ser apenas “como fechar?” e passa também a ser “o que esse território poderá ser depois?”

O fechamento de uma mina também é uma questão social

Há ainda uma dimensão que não aparece quando a discussão fica restrita à vegetação.

Municípios do Quadrilátero construíram parte de sua economia em torno da mineração. Empresas geram empregos, arrecadação e movimentam cadeias de fornecedores durante a operação.

Quando uma mina fecha, portanto, a transformação não acontece apenas no terreno.

O próprio conceito de fechamento adotado pela Feam inclui a necessidade de avaliar impactos socioeconômicos associados ao encerramento da atividade e articular medidas com as comunidades vizinhas.

Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Mineração voltou a destacar essa dimensão ao discutir a evolução dos Planos de Fechamento de Mina. A ANM informou que todos os títulos ativos devem contar com plano de fechamento e estimou um universo de cerca de 47 mil planos a serem analisados pela agência, dos quais 230 haviam sido aprovados até então.

A escala nacional é muito maior que a do Quadrilátero Ferrífero, mas a mudança regulatória alcança diretamente as regiões onde a mineração tem longa história.

O fechamento deixou de ser tratado apenas como o último capítulo de uma mina.

Passou a ser planejado como parte de sua própria existência.

Uma recuperação que precisa começar antes do fim

O cenário que emerge do Quadrilátero Ferrífero é menos simples do que a oposição entre “mineração” e “área recuperada”.

Existem minas em operação, áreas paralisadas, empreendimentos em fechamento, terrenos em processo de recuperação, passivos antigos e novas propostas de exploração. Cada situação possui características ambientais e técnicas diferentes.

O Estado ampliou mecanismos de acompanhamento e criou um programa específico para organizar o pós-mineração. As empresas passaram a incorporar planos de fechamento ao planejamento dos empreendimentos. Universidades continuam produzindo conhecimento sobre como recuperar ambientes específicos.

Mas a pesquisa sobre as cangas de Mariana demonstra que nem toda recuperação pode ser avaliada pela aparência da paisagem.

Uma área pode voltar a ter vegetação e ainda não ter recuperado a biodiversidade, o solo e as funções ecológicas que existiam antes da mineração.

Essa diferença é particularmente importante no Quadrilátero Ferrífero porque a mesma região concentra minério, nascentes, campos ferruginosos, florestas e espécies endêmicas.

A mineração transforma o relevo em uma velocidade compatível com o ciclo econômico de uma empresa. A recuperação ambiental, em determinados ambientes, pode seguir outro relógio.

E é nesse intervalo — entre a velocidade da extração e o tempo necessário para reconstruir um ecossistema — que está uma das questões centrais do futuro do Quadrilátero Ferrífero.