Durante décadas, a imagem econômica de Minas Gerais esteve associada a atividades que ajudaram a construir a identidade produtiva do estado: mineração, siderurgia, café, pecuária, indústria de transformação e uma forte presença do setor de serviços.

Essas atividades continuam fundamentais. Mas há outra transformação acontecendo, menos visível no cotidiano e mais perceptível dentro de laboratórios, parques tecnológicos, universidades e empresas jovens:

Minas Gerais está criando uma rede de inovação capaz de aproximar conhecimento científico, empreendedorismo e mercado.

A mudança não acontece em um único endereço. Em Belo Horizonte, ela passa pela UFMG e pelo BH-TEC. Em Viçosa, pelo ecossistema formado em torno da Universidade Federal de Viçosa e do tecnoPARQ.

Em Lavras, ganha escala por meio do Parque Científico e Tecnológico da UFLA. Em Poços de Caldas, um novo parque tecnológico ampliou a presença institucional do Estado no Sul de Minas.

Ao mesmo tempo, programas estaduais passaram a tentar conectar esses ambientes a startups e empresas.

Não se trata apenas de abrir empresas de tecnologia. O movimento mais importante está na tentativa de fazer a pesquisa sair do ambiente acadêmico e chegar ao setor produtivo.

Uma rede que deixou de estar concentrada na capital

Um estudo concluído em 2026 pelo Grupo de Pesquisa Economia da Ciência e Tecnologia, do Cedeplar/UFMG, identificou um crescimento significativo da estrutura de inovação em Minas nas últimas duas décadas.

Segundo a pesquisa, aumentou o número de instituições ligadas ao ecossistema, incluindo laboratórios, parques tecnológicos, universidades, institutos e unidades Embrapii.

O estudo também aponta uma expansão das conexões entre produção científica e indústria.

Esse processo ajuda a explicar uma mudança que pode parecer pequena, mas tem implicações econômicas importantes: a inovação mineira está deixando de depender exclusivamente de iniciativas isoladas de grandes empresas ou de universidades específicas e começa a assumir características de rede.

Em uma rede desse tipo, o laboratório pode produzir uma tecnologia; a universidade protege a propriedade intelectual; um parque tecnológico oferece estrutura e orientação; uma startup transforma a tecnologia em produto; uma empresa testa a solução; e mecanismos públicos de financiamento ajudam a diminuir o risco das primeiras etapas.

É justamente essa conexão que instituições como a Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG tentam organizar. A CTIT atua na proteção da propriedade intelectual e na aproximação entre pesquisadores, empresas e tecnologias desenvolvidas dentro da universidade.

O resultado mais interessante não é necessariamente o número de startups criadas, mas a possibilidade de transformar conhecimento acumulado em atividade econômica de maior valor agregado.

Belo Horizonte concentra uma parte importante dessa engrenagem

Na capital, o BH-TEC funciona como um dos principais pontos de encontro entre universidade e empresas de base tecnológica.

O parque mantém relação estratégica com a UFMG e vem ampliando sua estrutura. Em 2025, anunciou sua primeira expansão física desde a inauguração, com investimento aproximado de R$ 20 milhões e novos espaços voltados a centros tecnológicos, living labs e empresas associadas.

O impacto pode ser observado também no perfil de empresas instaladas no parque.

Em agosto deste ano, a FabNS, empresa residente no BH-TEC e criada a partir de pesquisa desenvolvida na UFMG, foi escolhida como Deep Tech do Ano da América Latina, após superar mais de 400 startups inscritas em diferentes países. A empresa desenvolve instrumentação científica e surgiu a partir do Laboratório de Nanoespectroscopia da universidade.

É um caso que ilustra uma das mudanças mais importantes do ecossistema mineiro: a universidade não aparece apenas como formadora de profissionais. Ela também começa a funcionar como origem de tecnologias capazes de virar empresas.

Em outras palavras, a pesquisa deixa de terminar necessariamente na publicação de um artigo científico.

Pode terminar também em um protótipo, uma patente, uma startup e, em um estágio posterior, em um produto comercial.

Viçosa mostra que inovação não é exclusividade da metrópole

Se Belo Horizonte concentra infraestrutura, capital humano e empresas, Viçosa oferece um exemplo diferente: o de uma cidade de porte muito menor desenvolvendo um ecossistema próprio em torno de uma universidade.

O tecnoPARQ, ligado à UFV, reúne incubação, aceleração, empreendedorismo e conexão com o mercado. Em 2026, o parque iniciou uma nova edição de seu programa de pré-incubação com oito projetos selecionados e manteve programas voltados à transformação de ideias em negócios de base tecnológica.

Em maio, o Inovar 2026 reuniu mais de 1,1 mil participantes, entre estudantes, pesquisadores, startups, empresários e especialistas. O evento colocou no centro das discussões temas como inteligência artificial, empreendedorismo e transformação de negócios.

Os números ajudam a mostrar a dimensão do movimento, mas há algo mais significativo acontecendo ali.

A inovação passa a ser tratada como parte do desenvolvimento regional.

Isso é especialmente importante para cidades do interior. Um ecossistema tecnológico forte pode criar oportunidades para que pesquisadores, estudantes e profissionais qualificados permaneçam na própria região, além de permitir que empresas surjam fora dos grandes centros tradicionais.

O modelo não elimina os problemas econômicos locais, mas cria uma alternativa ao desenvolvimento baseado exclusivamente nos setores produtivos históricos.

Lavras aproxima pesquisa de setores tradicionais

Em Lavras, a lógica assume outra característica.

O Parque Científico e Tecnológico de Lavras, o IpêTech Lavras, funciona dentro de uma região cuja economia possui forte presença do agronegócio e da produção de café. E é justamente nesse ponto que inovação e tradição econômica começam a se encontrar.

Em junho, uma startup criada por estudantes da UFLA apresentou uma plataforma de rastreabilidade da cadeia produtiva do café baseada em blockchain e tags NFC. A iniciativa nasceu em um hackathon e avançou para um programa de pré-incubação do parque tecnológico.

A tecnologia, nesse caso, não foi criada para substituir a economia tradicional da região.

Ela foi criada para resolver um problema dentro dela.

Essa talvez seja uma das características mais promissoras do modelo mineiro. A inovação não precisa necessariamente produzir uma economia completamente nova. Pode tornar mais sofisticadas as atividades que já existem.

Agricultura pode incorporar sensores, inteligência artificial e rastreabilidade.

Mineração pode utilizar novos materiais e tecnologias de monitoramento.

Siderurgia pode trabalhar com processos mais eficientes.

Saúde pode utilizar modelos preditivos.

Energia pode incorporar novas tecnologias de armazenamento e geração.

É nessa interseção que a inovação começa a produzir impacto econômico mais concreto.

Um novo parque tecnológico no Sul de Minas

A expansão também pode ser observada em Poços de Caldas.

Em fevereiro, o Governo de Minas reconheceu oficialmente o Cidade da Inovação como o 11º parque tecnológico do estado. Vinculado ao Instituto Federal do Sul de Minas, o projeto reúne a prefeitura, instituições de ensino superior e representantes do setor produtivo e pretende ampliar a geração de empregos qualificados e a atração de empresas de base tecnológica.

O dado mais relevante não é apenas o número 11.

É a distribuição geográfica.

Quanto mais ambientes de inovação surgem fora da capital, maior é a possibilidade de que pesquisadores, empreendedores e empresas encontrem estruturas de apoio próximas de seus próprios territórios.

Esse processo também pode reduzir uma concentração histórica: a ideia de que inovação, investimento e tecnologia precisam necessariamente passar por Belo Horizonte.

Ainda não há garantia de que todos esses parques terão o mesmo desempenho. Alguns possuem estruturas mais maduras, outros ainda estão formando suas comunidades. Mas a multiplicação desses ambientes cria uma infraestrutura que não existia na mesma escala algumas décadas atrás.

O Estado tenta acelerar a conexão

A expansão dos ambientes não ocorre apenas por iniciativa das universidades.

Em 2026, o Governo de Minas anunciou um pacote de políticas de inovação que soma R$ 203 milhões em editais e instrumentos de apoio ao ecossistema de ciência, tecnologia e inovação. Entre as iniciativas estão o Novo Seed, voltado ao desenvolvimento de startups em diferentes regiões, e programas destinados à inovação aplicada ao setor produtivo.

O novo edital do Compete Minas destinou R$ 50 milhões a projetos de inovação tecnológica com potencial de aumentar a competitividade de empresas mineiras. Uma das linhas é voltada à chamada "tríplice hélice", que reúne instituições de ciência e tecnologia e empresas; outra recebe propostas diretamente de empreendimentos, startups e cooperativas.

Em julho, também foi divulgado o resultado da chamada Novo Seed 2026. Foram aprovadas nove propostas, somando R$ 18,2 milhões, dentro de uma política que busca fortalecer ambientes promotores de inovação e descentralizar a atuação para diferentes regiões do estado.

Outro programa, o Cientista Empreendedor, colocou até R$ 10 milhões à disposição para transformar pesquisas científicas e tecnológicas em novos empreendimentos. A proposta é utilizar ambientes de inovação para fazer a ponte entre pesquisadores e negócios.

Não é por acaso que os novos programas insistem tanto nessa conexão.

Produzir ciência é uma coisa. Transformar ciência em inovação é outra. E transformar inovação em negócio é uma terceira etapa, com obstáculos próprios.

O gargalo está entre o laboratório e o mercado

Minas tem universidades fortes, pesquisadores qualificados e uma economia diversificada. O problema histórico está muitas vezes no meio do caminho: transformar o conhecimento produzido em produto, processo ou empresa.

É uma dificuldade que não se resolve apenas aumentando o número de pesquisas.

Uma tecnologia pode funcionar perfeitamente em laboratório e ainda não estar pronta para o mercado. Pode precisar de validação, certificação, investimento, propriedade intelectual, cadeia de fornecedores, cliente disposto a testar e uma equipe capaz de conduzir a empresa.

É por isso que programas de pré-incubação, aceleração e transferência tecnológica ganharam importância dentro dos parques e universidades.

O tecnoPARQ, por exemplo, trabalha com uma metodologia de aceleração orientada por problemas reais de mercado — o chamado Market Pull — procurando conectar soluções tecnológicas a demandas concretas de empresas e setores econômicos.

No BH-TEC, um programa de pós-aceleração já contabilizou mais de 900 conexões entre startups, empresas e parceiros estratégicos em suas edições, mostrando que criar negócios também depende de construir redes de relacionamento.

Esse talvez seja o ponto em que o discurso sobre inovação precisa ser mais realista.

Uma startup não nasce apenas porque existe uma boa ideia.

É necessário financiamento, mercado, gestão, conhecimento técnico, infraestrutura e, muitas vezes, anos de desenvolvimento.

A mudança no perfil produtivo ainda está começando

É tentador olhar para parques tecnológicos, startups e pesquisas de ponta e concluir que Minas está se tornando um novo polo tecnológico.

Seria cedo demais para fazer essa afirmação.

A economia mineira continua fortemente apoiada em atividades tradicionais. A mineração, a agropecuária, a indústria e os serviços ainda possuem peso muito maior na produção e no emprego do que o setor de startups.

O que está mudando é outra coisa: a capacidade de adicionar tecnologia e conhecimento a esses setores e, paralelamente, criar novas atividades econômicas baseadas em ciência.

Essa mudança é mais lenta, mas talvez mais importante.

Ela aparece numa startup que aplica blockchain ao café.

Na empresa que transforma pesquisa de nanomateriais em tecnologia industrial.

No laboratório universitário que desenvolve uma solução de inteligência artificial para a saúde.

No parque tecnológico que conecta pesquisadores a empresas.

E em programas públicos que tentam reduzir a distância entre esses mundos.

Minas precisa transformar rede em escala

O avanço, entretanto, traz um desafio proporcional.

Não basta multiplicar parques tecnológicos, editais, startups e programas de aceleração. O ecossistema precisa produzir empresas capazes de sobreviver, crescer e competir.

Também será necessário melhorar a conexão entre os diferentes polos. Viçosa não precisa competir com Belo Horizonte. Lavras não precisa reproduzir o modelo da capital. Poços de Caldas pode desenvolver competências relacionadas às características econômicas do Sul de Minas.

A força de Minas pode estar justamente nessa diversidade.

Um ecossistema estadual de inovação não precisa ser uniforme. Pode ser especializado por região.

A Mantiqueira pode explorar tecnologias ligadas ao café e ao agronegócio.

O Vale do Aço pode aprofundar soluções para indústria, mineração, materiais e energia.

Belo Horizonte pode concentrar competências em tecnologia, saúde, inteligência artificial e serviços avançados.

Viçosa pode continuar conectando ciência, agricultura e empreendedorismo.

Lavras pode aproximar tecnologia e produção rural.

Esse modelo faria mais sentido para um estado tão grande e economicamente diversificado quanto Minas Gerais.

A transformação, portanto, não está em abandonar aquilo que Minas já sabe fazer.

Está em fazer melhor, com mais conhecimento e maior valor agregado.

Uma nova camada sobre uma economia antiga

Minas Gerais não está deixando de ser um estado da mineração, do café ou da indústria.

Está começando a acrescentar uma nova camada sobre essa economia.

A diferença é que essa camada é produzida em laboratórios, parques tecnológicos, universidades e startups. E, quando funciona, pode chegar justamente aos setores que já sustentam o estado.

Os sinais de 2026 são claros: a quantidade de instituições aumentou, novos ambientes estão surgindo, programas públicos estão ampliando o financiamento e universidades estão tentando transformar pesquisa em empresas.

Ainda falta provar que essa estrutura será capaz de gerar empresas de grande escala, empregos qualificados em quantidade e tecnologias competitivas internacionalmente. Mas a infraestrutura para tentar fazer isso já está mais espalhada pelo território mineiro.

A mudança talvez não apareça primeiro em uma grande fábrica ou em um novo arranha-céu.

Pode começar em uma bancada de laboratório, em uma startup criada por estudantes ou em um pesquisador que finalmente encontra uma empresa disposta a transformar sua descoberta em produto.

É nesse espaço — entre a ciência que Minas produz e a economia que Minas construiu — que se desenha uma das transformações mais interessantes do estado.