Durante gerações, o barro retirado do território do Vale do Jequitinhonha passou pelas mãos de artesãs e artesãos para se transformar em bonecas, figuras humanas, animais, objetos utilitários e representações do cotidiano. Em setembro de 2026, parte dessa produção chegará a um dos principais circuitos internacionais de design e decoração.

Cerca de 150 esculturas produzidas por artesãos de quatro comunidades do Vale do Jequitinhonha — Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado — serão apresentadas em Paris durante a Paris Design Week. As peças estarão na Maison & Objet, entre 10 e 14 de setembro, e também na exposição “A Terra Modelada pela Arte – Vale do Jequitinhonha”, na Ricardo Fernandes Gallery, de 8 a 18 de setembro.

A iniciativa é realizada pelo Sebrae Minas em parceria com o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico. A participação foi organizada dentro de uma estratégia de ampliação de mercados para o artesanato produzido na região.

Uma tradição reconhecida como patrimônio

A chegada das peças a Paris acontece depois de décadas de circulação do artesanato do Jequitinhonha em feiras, exposições e mercados brasileiros.

O trabalho em barro produzido na região foi reconhecido como Patrimônio Cultural de Minas Gerais em dezembro de 2018. O registro realizado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) identificou artesãos e artesãs de 21 municípios. A plataforma utilizada durante o processo recebeu 122 cadastros.

O levantamento do instituto também registrou as diferentes etapas do processo de produção. O trabalho pode envolver a extração do barro, preparação dos pigmentos, modelagem das peças e construção dos fornos utilizados na queima.

As peças não seguem um único padrão. O repertório inclui representações de pessoas, cenas do cotidiano, animais, objetos e figuras ligadas às experiências e às referências culturais de cada comunidade.

Esse conhecimento é transmitido entre gerações e permanece associado ao território onde a produção acontece.

De Santana do Araçuaí para Paris

Entre os artesãos selecionados para a programação internacional está Augusto Ribeiro, morador de Santana do Araçuaí, distrito de Ponto dos Volantes.

Segundo o Sebrae, Ribeiro começou a ter contato com o barro ainda criança, acompanhando familiares durante a produção. A tradição da comunidade também está relacionada à trajetória de Dona Izabel Mendes da Cunha, uma das principais referências da cerâmica do Jequitinhonha.

Para a exposição em Paris, Ribeiro selecionou diferentes trabalhos de sua produção, incluindo uma representação da “Noiva”, figura associada à tradição criada por Dona Izabel.

Outra representante de Santana do Araçuaí será Andréia Andrade, neta de Dona Izabel.

Andréia cresceu acompanhando a avó e os pais na produção de bonecas-moringas. Em 2022, recebeu o Prêmio Top 100 de Artesanato Brasileiro. Para a programação francesa, levará suas tradicionais noivas e uma escultura que representa Dona Izabel modelando uma cabeça de noiva.

A presença das duas gerações na mesma programação também coloca em evidência uma característica recorrente da produção artesanal do Vale: a transmissão do conhecimento dentro das próprias famílias e comunidades.

A arquitetura do Vale transformada em miniatura

Em Cachoeira do Fanado, comunidade de Minas Novas, a artesã Alice Costa encontrou outra maneira de registrar o território.

Ela produz miniaturas de casas, casarões e igrejas da comunidade, utilizando a arquitetura local como referência para suas peças. O trabalho começou quando ainda era criança e posteriormente se transformou também em fonte de renda para sua família.

Costa está entre os artesãos selecionados para a Maison & Objet.

A participação em Paris leva, portanto, diferentes formas de representação do Jequitinhonha. Há as figuras humanas, as bonecas, as esculturas ligadas à tradição familiar e também reproduções de elementos arquitetônicos do território.

O trabalho de Campo Alegre

Outra comunidade representada na programação internacional é Campo Alegre, em Turmalina.

A artesã Adriana Xavier começou a modelar barro aos dez anos, seguindo um aprendizado transmitido pela família. Atualmente, também atua na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, que reúne 52 mulheres.

Para a Maison & Objet, ela enviará bonecas de cerâmica, em diferentes tamanhos, uma das marcas de sua produção.

A associação e a atuação coletiva das artesãs fazem parte de uma estrutura que vai além da produção individual das peças. A organização em grupos e associações facilita a participação em iniciativas de comercialização e divulgação e amplia a capacidade de apresentação da produção artesanal fora das comunidades.

O caminho até o mercado internacional

A participação em Paris não surgiu de uma única ação.

De acordo com o Sebrae Minas, a instituição trabalha com o artesanato do Vale do Jequitinhonha há mais de duas décadas. Entre as iniciativas desenvolvidas estão ações voltadas à gestão dos negócios, empreendedorismo, desenvolvimento de produtos, presença digital, design e acesso a mercados.

Em 2019, foi criado o projeto Identidade e Origem. Em 2021, surgiu a Marca Território Vale do Jequitinhonha.

Segundo os dados apresentados pelo Sebrae, atualmente 120 artesãos são atendidos pelas ações relacionadas ao projeto, com quatro comunidades como principais beneficiárias: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado.

A instituição informa ainda que aproximadamente R$ 2,5 milhões foram movimentados em vendas nos últimos anos. Em 2025, a iniciativa “Viagem para a Origem”, que leva compradores nacionais ao Vale, gerou mais de R$ 450 mil em compras diretas e encomendas.

Esses números ajudam a dimensionar uma mudança no modo como parte da produção artesanal chega ao consumidor: além da comercialização local e das tradicionais feiras, os artesãos passaram a participar de iniciativas estruturadas de acesso a compradores e mercados especializados.

Uma feira em Belo Horizonte reúne outras 120 trajetórias

Enquanto parte da cerâmica do Vale se prepara para chegar à França, outra parcela da produção estará reunida em Belo Horizonte.

A 25ª Feira de Artesanato do Vale do Jequitinhonha da UFMG será realizada entre 13 e 19 de setembro, no campus Pampulha. O evento reunirá 120 artesãos de 30 municípios, organizados em 55 associações.

A programação inclui cerâmica, tear, bordado, tecelagem, madeira e palha, além de produtos da agricultura familiar.

A feira, criada como espaço de comercialização e divulgação da produção do Vale, chega à 25ª edição mostrando que a circulação do artesanato continua acontecendo também dentro de Minas. Em 2026, a organização espera cerca de 25 mil visitantes durante os sete dias de programação.

Entre a comunidade e as vitrines internacionais

A presença em Paris coloca peças produzidas em comunidades do Jequitinhonha diante de um público diferente daquele encontrado nas feiras e mercados regionais.

Na Maison & Objet, as obras estarão em um ambiente voltado aos setores de design, decoração, arquitetura, arte e lifestyle. Segundo o Sebrae, a programação pretende aproximar os artesãos de compradores, galeristas, arquitetos, designers, curadores e outros profissionais do mercado internacional.

Na Ricardo Fernandes Gallery, a exposição ocorrerá no Marais, região de Paris conhecida pela concentração de espaços culturais e galerias.

A iniciativa também amplia uma trajetória de aproximação entre a produção cultural mineira e instituições francesas. Em 2024, representantes do Governo de Minas estiveram em reuniões com o Centro Georges Pompidou e com o Musée du quai Branly para discutir possibilidades de intercâmbio e exposição de arte e artesanato mineiros. Na ocasião, o governo apresentou a mostra “Jequitinhonha: Origem e Gesto”.

A programação de setembro de 2026, porém, tem características próprias: desta vez, as peças de comunidades ceramistas do Vale estarão efetivamente em exposições e eventos realizados em Paris.

O barro que continua sendo produzido no Vale

A viagem das peças para a França não altera o local onde esse conhecimento continua sendo produzido.

Em Santana do Araçuaí, Campo Alegre, Coqueiro Campo, Cachoeira do Fanado e em outras comunidades do Jequitinhonha, a produção permanece ligada ao trabalho cotidiano de artesãos e associações.

Em Paris, serão apresentadas cerca de 150 esculturas. No Vale, outras peças continuarão sendo modeladas, queimadas, pintadas e comercializadas.

Entre esses dois pontos — a comunidade produtora e o mercado internacional — está o percurso que vem sendo construído para ampliar a circulação do artesanato do Jequitinhonha.

Em setembro, esse percurso chegará às vitrines da Paris Design Week.